O Parto (capítulo ampliado)


O MILAGRE DA VIDA

O parto estava marcado para segunda-feira, dia 23 de abril de 2007. O apressadinho, porém, preferiu nos pegar de surpresa. Talvez para ser mais emocionante. Foi assim:

Na quinta-feira, dia 19, estávamos todos tranqüilos. O Flávio – meu sócio, meu amigo, meu primo de sangue e meu irmão de coração – me deixou em casa após o trabalho, por volta das 18h40, e entrou para ver a Célia, barriguda de quase nove meses. Eu e Célia fizemos praticamente uma entrevista com ele. Foi uma hora de perguntas sobre bebê, parto, nascimento, visitas, pós-parto, sentimentos, emoções, sensações. No final da conversa, a Célia dizia a mim e ao Flávio: “Veja como a barriga fica dura!” – mostrando o que já era o início das contrações, mas que ainda não sabíamos.

Era 19h45 e Flávio ia embora com a promessa de sairmos no dia seguinte, junto com a Carla, sua esposa, e suas duas filhas, para comermos algo. Como a Célia estava tendo azia com quase tudo que comia durante a noite, o pedido dela era que o cardápio fosse sorvete. Tudo bem, aceito. “Amanhã, sexta-feira nos encontraremos à noite, porque se não for amanhã, não conseguiremos sair juntos pela última vez antes do Giovani nascer” – despediu-se o Flávio com o futuro planejado e todos nós seguros disso. Pobres coitados de nós, ignorando que havia ficado de fora de nosso pacto a pessoa que mais poderia alterar esse futuro próximo: o bebê.

Assim que o Flávio saiu, percebi que a Célia estava diferente dos outros dias da gravidez. Parecia um pouco incomodada e nem cogitei a hipótese de fazer algo para comermos. Por telefone, pedi uma pizza– meia marguerita, meia banana com mussarela. Eu estava um tagarela, falava sem parar, como muitas vezes. Mas naquela noite ela estava com menos paciência. Pediu para eu ficar “quietinho” porque estava com “uma dorzinha”. A Célia foi fazer xixi, normalmente, como as outras setecentas e quarenta e duas vez por dia e noite que isso acontecia durante a gravidez, mas voltou do banheiro com uma expressão preocupada. “Sangrou um pouquinho quando fiz xixi… Será que isso é normal?”, perguntou ela já com uma expressão preocupada. “Ligue para o médico”, respondi. “Ele saberá dizer se é normal ou se temos de fazer algo”. Mas meu conselho foi em vão. “Ah, não… Não vou incomodar o doutor Anastásio a essa hora. Vamos ver se sangra novamente mais tarde aí eu ligo”, decidiu ela meio insegura do que dizia.

Às 21h00, eu estava, de pijama, comendo a pizza na cama e a Célia, ao meu lado, não resistiu. “Ah, Júnior, vou comer um pedaço da pizza de banana. Vou ter azia de qualquer jeito mesmo! Dane-se, faz tanto tempo que não como pizza…” – caiu na tentação a minha gata prenha que já começava a sentir um pouco de dor e aumento no incômodo da barriga “dura”, porém, mais segura após um xixi e nada de sangue. “Não sangrou mais, acho que foi só aquela vez mesmo. Que bom”, contou ela com uma aparente tranqüilidade. Aparente.

Por volta das 21h30, veio a primeira reclamação oficial: “Ai, Junior, está doendo no pé da barriga”. Fiquei alerta. Um pensamento, nesse exato momento passou pela minha mente: “Ai, ai, ai, será que teremos uma noite tumultuada?”, mas só pensei e guardei para mim, não disse nem demonstrei nada a ela. Eu tinha de ser um apoio, um porto-seguro e não uma fonte de insegurança. Na calma, respondi: “Ligue para o médico, ele poderá te tranqüilizar… ou não”, brinquei. Imediatamente ela foi ao banheiro e, após mais um xixi – a urina de número setecentos e quarenta quatro daquele dia –, a Célia saiu do banheiro com uma expressão assustada. “Sangrou de novo”, disse ela com cara de quem viu fantasma, ou melhor, com cara de quem já havia perdido um bebê há quinze meses e meio após essa mesma constatação de sangramento. Acalmei-a: “Ligue para o doutor Anastásio, meu anjo, ele vai dizer pra você exatamente o que pode estar acontecendo e te tranqüilizar. Para quê ficar sofrendo com a dúvida, sendo que você pode ligar para o médico, que é a pessoa mais competente para lhe instruir neste momento? Vamos, não espere não, ligue já para não ficar ainda mais tarde e ser ainda mais incômodo para ele e para nós”.

 

CRONÔMETRO

Ela ligou. Ouvi apenas um lado da conversa, mas podia deduzir claramente o outro. Após as desculpas de praxe, e aquele “ritual” de início de ligação telefônica fora de hora, ela contou: “Doutor, sangrou um pouco por duas vezes agora à noite, e minha barriga está ficando dura, também estou com uma dorzinha no pé da barriga… Sim, sangrou vermelho na primeira vez e um ‘pó de café’ na segunda vez… Isso, doutor, dói bem embaixo da barriga… Não, não tomei nada, nenhum remédio… Está bom, então vou marcar o tempo direitinho e te ligo para avisar… Muito obrigada, doutor e me desculpe por ligar nesse horário… Está bom, obrigada”, desligou o telefone e veio me contar: “Júnior, o doutor Anastásio disse que esse ‘endurecimento da barriga e a dor’ são contrações e pediu para contarmos de quanto em quanto tempo está acontecendo e quanto tempo dura. Se estiver tendo contrações de cinco em cinco minutos é para eu ligar de volta para ele, se o tempo for muito maior que isso é para eu tomar Buscopan”. Me prontifiquei na hora: “Ok, Célia, vamos cronometrar já então”. “Vou fazer mais um xixizinho então, aí começamos”, propôs-me ela já entrando no banheiro. Num salto, tirei o pijama, me troquei para sair e fiquei de prontidão. Quando ela saiu do banheiro, uns quarenta segundos depois, assustou-se comigo e reclamou: “Porque você está vestido assim? Que absurdo, Júnior! Você é louco. Para quê se trocar assim? Isso não é nada”. “Ah, Célia, se não for nada, volto a colocar meu pijama, mas prefiro ficar preparado… nunca se sabe, minha gata”, argumentei, mas ela saiu com expressão de desaprovação e inconformada com minha atitude, na visão dela, uma decisão extremamente precipitada.

Começamos a cronometrar. Por mais que eu estivesse ansioso e preocupado naquele momento, mantive a calma e expressava tranqüilidade a todo momento. Isso era bom pra mim, e ainda melhor para ela. O início dessa contagem de tempo foi meio confuso: “Agora, Júnior, marca!”, disse a Célia enquanto eu apertava o botão do cronômetro do meu relógio. Alguns cinqüenta segundos depois: “Agora!”, sinalizava para eu parar o cronômetro. Eu olhava o tempo – cinqüenta segundos – e em menos de um segundo voltava a iniciar o cronômetro para marcar o tempo do intervalo entre as contrações. Chegava a ser emocionante. “Marca!” – cinco minutos exatos de intervalo. Tudo bem, era somente a primeira contagem de tempo. Vamos fazer isso várias vezes durante uma hora para nos certificarmos, se tiver de ligar para o médico, que seja com certeza absoluta. “Agora”, sinalizava. Mais de dois minutos depois, dizia ela com cara de desapontamento: “Acho que já passou e não consegui perceber…” – inexperiência, mãe de primeira viagem… “Tudo bem, Célia, vamos esperar a próxima e cronometrar de novo”.  “Agora…” – e, trinta segundos depois – “Acho que não era não”. E ficamos nessa de marca, desmarca, inicia cronômetro, pára, volta, tenta de novo. “Acho que em pé é melhor para eu perceber quando começam e terminam as contrações”, argumentou ela. E foi melhor mesmo, assim conseguimos marcar os tempos, com algumas pequenas falhas. Anotei cada horário no palmtop para ter certeza e poder analisar depois, um pouco “de fora” dessa situação em que a emoção começava a tomar conta de mim.

As contrações duravam, em média, cinqüenta segundos e vinham em intervalos de cinco minutos. Quando falhava alguma marcação, o intervalo era de onze minutos, ou seja, dois intervalos de cinco minutos e uma contração de quase um minuto no meio. Com quarenta minutos de marcação eu já tinha certeza de que estava na hora – tudo que lemos, nos informamos, as palestras que ouvimos, as orientações do médico, enfim, tudo dizia que a hora chegava, mas parece que eu queria me certificar mais, talvez por medo, por insegurança, ou por chegar a hora de um momento tão esperado. Acho que tanto queria que chegasse, que agora estava com medo de ter chegado o momento. Meu filho ia nascer e eu não estava preparado. Ninguém está, por mais que tenha sido desejado, planejado, amado mesmo antes de ter sido concebido. Por mais que o útero da Célia tenha se enchido de amor antes de abrigar aquele bebê, acho que nunca estamos preparados, pois a preparação que falta vem de Deus, no momento do nascimento – é o toque final do milagre da vida.


É AGORA

Eram quase 23h00 e terminamos de fazer uma hora de contagem de tempo, anotada no palmtop e conferida minuciosamente. A Célia havia acabado de ligar para o médico, mas a esposa dele atendeu e perguntou se ele podia retornar em cinco minutos, o que foi prontamente atendido pela Célia, lógico. Foram alguns minutos de tensão. A espera da ligação durou horas em nossas mentes ansiosas e surpresas com a situação tão nova. Doutor Anastásio retornou em menos de cinco minutos, bastaram três e ele já estava ao celular conversando com minha esposa. Foi uma conversa rápida e quase nada deu para deduzir desta vez, deste lado da conversa. Uma frase apenas da Célia – “Doutor estou tendo contrações de cinco em cinco minutos e com duração de cinqüenta segundos cada uma.” – e logo em seguida um monte de “Então está bom” e “Entendi”. Até dava para deduzir sim, pelo contexto todo, pela história completa, mas, neste momento precisa ter todas as letras para acreditarmos, para sermos convencidos. A última pergunta dela, porém, acabou com qualquer dúvida ou mistério: “Mas também pode ser alarme falso, não é doutor?”. Cinco segundos depois, a Célia desligou o celular e contou-me a ordem do médico: “Júnior, ele me disse para irmos agora para o hospital. Ele está saindo agora de Bragança para nos encontrar lá”. Não havia como negar, seria agora. Chegou a hora. Não há como adiar. O sorvete do dia seguinte, a consulta e a cesariana marcada para a segunda-feira, todos os planos do sábado e domingo, tudo ia por água abaixo. Ou não…

A Célia ligou para a mãe dela, dona Tereza, que estava em casa com os irmãos (meus cunhados) Valdirei, Nilza e Luciana, além do sogrão, seu Sylvio. Mas só avisou que estava indo para o hospital porque o médico mandou, mas que “deve ser alarme falso”. Coitadinha, escondendo o sol com a peneira, driblando a realidade para não ter de encarar a dura verdade: estava em trabalho de parto e o bebê nasceria em instantes.

Enquanto minha esposa se maquiava – isso mesmo, maquiar-se para ter nenê –, se trocava, e fazia o xixi de número setecentos e quarenta e nove (sim, eu deixei de narrar alguns xixis para a história ficar mais “enxuta”), o que demoraria cerca de cinco minutos, eu já havia colocado a mala do bebê e a mala da Célia no carro (quando digo “mala da Célia” é mala mesmo, aquela de transportar roupas, não é figura de linguagem, nem força de expressão), a máquina fotográfica estava em meu bolso, o palmtop para mostrar os horários ao médico, a carteira com meus documentos, o cartão de pré-natal da Célia, a chave da casa, o documento do carro, já havia tratado das cachorras (temos três fêmeas: maltês, boxer e labrador), desligado as luzes de fora (exceto a que ilumina a frente da casa), havia colocado no carro também uma toalha de banho azul limpa, para o caso de a bolsa se romper no caminho para o hospital e avisava a Célia: “Gata, está tudo pronto para irmos”, e ia respondendo “já” para a série de perguntas que vieram depois, sobre todos os preparativos que eu havia feito. E finalizei: “Só não liguei o alarme e tranquei a porta porque você ainda não saiu de casa para irmos”. Logo em seguida o irmão da Célia, Valdirei (não sei de onde minha sogra tirou esse nome, mas é a cara dele, único, combinou), ligou e me perguntou se precisava que ele fosse junto ao hospital, demonstrando um pouco de insegurança pela afirmação da Célia de que deveria ser um “alarme falso”. Apenas respondi objetivamente: “Não preciso não e, mesmo que precisasse, não poderíamos esperar você vir de Bom Jesus dos Perdões (a oito quilômetros de nossa casa). Mas, se você quiser estar lá quando seu sobrinho nascer, então saia daí agora”. Ele ainda me perguntou: “Mas será que não é alarme falso?”. Respondi, novamente, com segurança e objetividade: “Não é não, pode vir”. “Então estamos indo nós todos”, respondeu desligando o telefone sem se despedir. Liguei para o Flávio: “Flávio, boa noite. Torça por mim e pela Célia que estamos indo para o hospital agora”. “Nossa! Mas, o que aconteceu?”, perguntou, ainda assustado com minha frase. “A Célia está tendo contrações a cada cinco minutos e o médico pediu para irmos para o hospital. Acho que o Giovani vai nascer agora” – “Nossa, Júnior, pode deixar estaremos torcendo. Você precisa de alguma coisa?” – “Não, não, não precisamos de nada, só que você e a Carla torçam e rezem por nós neste momento, que estamos saindo”, informei. Então, liguei para minha mãe e contei também: “Mãe, estamos indo para o hospital. A Célia está com contrações. Acho que vai nascer logo”. A resposta foi meio imediata e previsível – incredulidade total: “Sério? Verdade? Ai meu Deus, verdade mesmo Júnior?”. E a conversa terminou com um “tchau” seco, sem longas despedidas também. Eram 23h10 e essa seria a última vez que eu olharia no relógio nas próximas três horas.


UMA ÚLTIMA FOTO

Enfim saímos, mas, na garagem, sugeri: “Vamos tirar a última foto grávida aqui?”. E foi quando cliquei a Célia, seu barrigão, segurando as duas malas, a azul e a rosa, na garagem, ao lado do carro já de portas abertas para sairmos. Entramos no carro, saímos de casa e eu acelerei a cento e trinta quilômetros por hora, com pressa, até perguntar: “O doutor Anastásio mora em Bragança?”. “Isso mesmo, é de lá que ele está saindo para vir para Atibaia, no hospital”, respondeu-me ela. “Ah, então ‘desencana’, vamos mais devagar que tranqüilamente chegaremos primeiro que ele”, respondi reduzindo a velocidade a oitenta quilômetros por hora e relaxando um pouco para voltar ao controle da situação e transmitir calma a minha gatinha, prestes a dar à luz. Ela concordou: “Melhor mesmo para eu sentir menos os buracos do caminho, porque minha barriga está doendo”.

Quando eu deixava a rodovia Dom Pedro I para pegar a Fernão Dias, meu celular tocou. Era o Valdirei avisando que já havia saído de casa, enquanto eu dizia que estava na rodovia, quase chegando ao hospital.

Seis minutos após ter saído de casa, chegamos ao Hospital e Maternidade Albert Sabin. Entrei diretamente no portão de emergência – aquele reservado às ambulâncias, ao socorro de acidentados e a maridos trazendo suas esposas em trabalho de parto. Só confirmei com o segurança se podia deixar o carro lá e ele, educadamente, me respondeu: “Tudo bem se o senhor tirar o carro daqui a pouco deste lugar”. “Ok, ok, pode deixar”, e já fui entrando ainda sem as malas para não ‘pagar mico’ no caso de um alarme falso – o que, em minha mente, tinha apenas meio por cento de chance de acontecer.

Na recepção, a Célia foi logo explicando que estava com contrações e que o doutor Anastásio havia pedido para ela vir e tudo aquilo. A atendente logo percebeu que era impossível ser alarme falso e com um sorriso, foi confirmando todos os “sintomas” do trabalho de parto, dizendo que já era mãe e havia sentido tudo aquilo. Nem nesse momento minha esposa caiu na real que teríamos o bebê naquela noite ou madrugada. Ainda queria convencer-se de que seria apenas um alarme falso. Que o médico viria, a examinaria e mandaria de volta para casa, reafirmando a promessa de um parto na segunda-feira e desejando um bom final-de-semana. Santa inocência…

Enquanto a atendente fazia a ficha para a Célia ser atendida, meu celular tocou. Era o Valdirei avisando que estava quase chegando. Tocou de novo. Era o Flávio perguntando se estava tudo bem e confirmando se não estava precisando de nada mesmo. E tocou pela terceira vez, com minha irmã, Ana Silvia, dizendo que estavam saindo: ela, meu pai e minha mãe, para virem pra cá. Percebi todos eles, apavorados no celular, mas eu me mantinha calmo e tranqüilo. Confiante. Sabia que Deus estava comigo e que eu deveria transmitir essa calma a minha esposa.

O médico que atenderia a Célia neste momento seria o doutor Luiz Gustavo, o plantonista daquele momento. Ela já o conhecia, como conhecia quase todos os médicos daquele hospital, pois trabalhava como relações-públicas visitando os médicos da região para levar trabalhos de marketing de relacionamento de uma farmácia de manipulação da cidade. Cerca de dois minutos depois, uma enfermeira chamou o nome da Célia para entrarmos. Ficamos na sala de atendimento do pronto-socorro aguardando o médico. Em seguida chegou outra enfermeira que disse à Célia para ir à sala seguinte e trocar-se, para colocar a roupa do hospital para que ela fosse examinada. Trinta segundos depois chegou o médico, que mandou desdizer tudo. Foi até lá a mesma enfermeira e disse para a Célia voltar a colocar sua roupa, pois o médico não a examinaria. Recomposta e com suas próprias roupas, ela sentou-se ao meu lado em frente ao doutor Luiz Gustavo e ouviu. “Então é você Celinha! O doutor Anastásio já me ligou, não vou fazer nada com você, ele pediu para já ir fazendo sua internação”. Para mim foi a última confirmação: seria agora o parto. Para a Célia, uma internação para ficar no hospital, ser medicada para tirar a dor e no máximo na hora do almoço de sábado estar de volta em casa, e descansar para a cesariana de segunda-feira. Doce ingenuidade… Suave fuga da realidade… Sutil engano…

Quase que sem tempo para qualquer reação, chegou o esperado doutor Anastásio na sala. Cumprimentou-nos e disse para a Célia, agora sim, trocar-se na sala seguinte para ser examinada. Enquanto ela se trocava, confirmei com ele sobre a duração e os intervalos das contrações e mostrei-lhe os horários anotados em meu palmtop. Percebi sua satisfação em minha organização e calma e a prudência em me responder, antes de examiná-la, que iria ver se seria agora o parto, mas que tinha quase certeza.


SERÁ CESÁREA

Enquanto o médico a examinava, e eu ouvia os batimentos cardíacos do bebê amplificados pelo sonar, mesmo a uma sala de distância, meu pensamento era confuso, tumultuado, e apesar de um medo e uma insegurança me invadir, eu parecia ter uma redoma de calma e tranqüilidade mais fortes que tudo. Minha fé também me ajudava, como sempre. Confio muito em Deus.

O médico saiu da sala e apenas me confirmou: “Vai ser agora mesmo”. “Será cesárea, doutor?”, perguntei e ouvi apenas sua confirmação e a ordem para eu ir ao setor de internações para assinar a devida documentação. Enquanto saia da sala, ouvi o médico ligando para uma enfermeira e pedindo para que preparasse o Centro Cirúrgico para uma cesárea. Dei um beijo na Célia e disse que iria logo ali assinar sua internação. E confirmei a ela, ainda sem cair na real: “Vai ser agora, gata”. Fiquei sem uma resposta, apenas um olhar arregalado e um aceno com a cabeça. Fui ao setor de internações. Ao passar pela sala de espera, vi minha sogra, o Valdirei e a Luciana, ansiosos, preocupados e tensos. Tranqüilizei-os dizendo que estava tudo bem e que a Célia estava sendo preparada para o parto, que seria em instantes. Continuei rapidamente, indo ao setor de internações, e quem estava lá era uma ex-colega de trabalho da Célia, a quem dei os documentos necessários e pude ver a empolgação dela em fazer a internação da minha esposa para o parto: “Que legal, o Giovani vai nascer, que sorte eu estar aqui no plantão hoje!”, disse ela, chamada Nayara, empolgadíssima. Deixei os documentos lá para os formulários serem preenchidos e voltei à companhia de minha Célia. Ela já estava em uma maca, preparando-se para subir para o Centro Cirúrgico, e a enfermeira me perguntou se eu trouxe a mala dela e do bebê. E imediatamente fui buscá-las no carro. Ao sair, trombei de frente com o segurança me procurando para tirar o carro daquele local de emergências, mesmo sabendo que estava vivendo uma emergência. Não discuti. Fui lá, estacionei o carro em local permitido, bem próximo ao portão que havia entrado, peguei as duas malas e voltei. Ao voltar à recepção do hospital, novamente passei tranqüilidade aos três espectadores ansiosos.

Quando cheguei à sala em que a Célia estava, percebi que não tinha ninguém. Fiquei preocupado por dois segundos, mas uma enfermeira já me achou, pegou as duas malas e pediu para outra atendente me levar ao Centro Cirúrgico, enquanto me entregava os documentos que havia deixado na sala de Internação. Então foi quando caí na real que iria assistir ao parto. Uma semana atrás, não havia nem hipótese de assistir. Mudei de idéia após incansáveis argumentos do Flávio e dos próprios argumentos do doutor Anastásio na consulta de um dia e meio atrás, a última do pré-natal. Agora estava frente a essa realidade, querendo assistir, mas com medo de passar mal e de, ao invés de participar, atrapalhar. Mas, era tarde para desistir – e eu não queria desistir. Tocou o celular de novo. Era o Flávio: “Junior, eu ia deixar a filmadora para você no sábado, quer que eu leve agora para você filmar o parto?”. “Não, Flávio, desencana, já estou no Centro Cirúrgico, me preparando para entrar, nem dá tempo mais”, respondi. “Em dez minutos estou ai, tchau”, me respondeu ele sem deixar escolha para mim, e sem despedir-se, o que já havia virado padrão (ou em inglês “default”, como dizia um amigo meu: “defó”). Ninguém mais se despedia de mim no celular nos últimos dez telefonemas.

Naquele instante eu precisava do máximo de apoio dos amigos e apoio espiritual. Liguei para meu amigo padre Epifânio, o “Pi”. O alô manso, bem baixinho, com que me atendeu denunciou que eu o havia acordado. Também devia ser meia-noite. “Pi, me desculpe por ligar nesse horário, mas você me pediu para eu avisar quando a Célia fosse ganhar nenê e estamos no hospital agora. O parto deve acontecer em alguns minutos. Reze por nós”, pedi e ele, que prontamente atendeu e logo respondeu afirmativamente, com voz de quem havia despertado com a notícia fatídica. “Claro, filho, estarei rezando desde já”, respondeu ele com a segurança de quem é íntimo de Deus.


NA ANTE-SALA

Chegando à ante-sala do Centro Cirúrgico fui instruído a tirar minha roupa e vestir a do hospital, própria para aquele local. Troquei de roupa e sentei num banco estofado, frio, naquela ante-sala. Vi uma televisão ligada. Passava o Programa do Jô, da Rede Globo, com Jô Soares entrevistando a banda Jota Quest. Assisti à entrevista toda. Tudo bem, estava no meio da entrevista, mas assisti todo o restante. A hora não passava. Que eternidade. Nem me atrevi a procurar um relógio para olhar. Seria pior. Que tensão, preocupação. Será que estava tudo bem com a Célia? Porque não me chamavam logo para entrar? Que saco! Agora chegava uma mulher na sala ao lado para trocar-se também. Com uma roupa igual a minha, como um par de vasos, ela sentou-se ao meu lado. Puxei conversa: “Ainda bem que tem televisão aqui, porque a hora não passa”. Ela me respondeu com uma pergunta óbvia: “Você é o pai?”. Quase respondi que não, pois seria pai somente depois que o Giovani nascesse, o que deveria acontecer em alguns minutos. Mas respondi que sim, já me sentia pai. Estava no meio da transformação. Saindo do casulo de ser humano comum, para ser pai. Essa nova sensação, esse novo estado, esse novo… Sei lá o quê, só sei que seria bem diferente de antes. Como se um botão fosse acionado em nosso cérebro com uma nova configuração, a de pai. Pensamentos diferentes, valores diferentes, preocupações diferentes, metas diferentes. Quase uma pessoa diferente. Após a pergunta e a óbvia resposta, ela disse que era a pediatra. Depois saberia que ela era a doutora Paula, a primeira a examinar meu filho logo em seguida a seu nascimento. Ela me explicou que, assim que ele nascesse, ela levaria o bebê para os primeiros cuidados e, logo em seguida, me chamaria para acompanhar a pesagem, os primeiros exames e todo o procedimento inicial. Então, a pediatra foi para o Centro Cirúrgico e eu continuei lá, esperando, ansioso. E quando o silêncio acabou de tomar conta novamente, apareceu uma atendente do hospital com uma filmadora na mão para me entregar. Peguei com uma certeza: o Flávio chegou, e chegou a tempo. Comecei a fuçar na máquina para aprender a manuseá-la naquele momento. Nunca a tinha visto e, se peguei numa filmadora umas duas vezes na vida foi muito. Achei o botão para ligar, mas ao olhar no visor percebi tudo preto. Em mais um segundo, achei o botão que abria o protetor das lentes e me dava a visão completa para registrar aquele momento. Comecei, para testar, filmando a ante-sala e seus “apetrechos”. Girei trezentos e sessenta graus naquele lugar, gravando tudo. Pausei a máquina. E voltei a esperar, explodindo de ansiedade e tensão. Além de um enorme medo de passar mal, afinal de contas, meu último contato com algo semelhante foi quando fui levar minha irmã para tirar os pontos de uma cirurgia no seio e minha pressão caiu ao ponto de ter de me deitar numa maca para me recuperar. Mico. Inconsciente, pois olhava todo o procedimento sem nenhum receio, mas o inconsciente foi mais forte. Mas agora teria de ser diferente. Caso algo acontecesse, eu poderia perder o momento mais importante de minha vida. Permaneci forte e respirando fundo. Coloquei minha máquina fotográfica no pulso direito e segurei a câmera com a mesma mão e treinei um pouco a habilidade de filmar e fotografar. Tudo ok.

“O pai pode vir”, chamou uma enfermeira. “É agora”, pensei, como já havia pensado outras dezoito vezes nos últimos cem minutos. Quando saía da ante-sala, uma advertência: “Não pode filmar não!”. “Ah, por favor, deixa vai”, insisti. “Não pode mesmo”, sentenciou ela com cara de poucos amigos. “Só vou poder fotografar?”, perguntei já “jogando um verde” para que ela deixasse entrar ao menos com a máquina fotográfica. “Tudo bem, pode fotografar porque é de madrugada e tem pouca gente, mas normalmente nem isso pode”, respondeu ela e logo após eu a agradeci. Corri de volta para guardar a filmadora junto com minhas roupas e fui para o Centro Cirúrgico. Chegando lá me decepcionei um pouco com o que vi. Não tinha aquele montão de equipamentos que vemos em filmes, nem um monte de médicos. Havia apenas o doutor Anastásio, um anestesista e uma enfermeira para ajudar. E a pediatra segurando uma espécie de toalha em posição para pegar o bebê assim que nascesse para examiná-lo e dar os primeiros cuidados. A enfermeira me mostrou o banquinho onde seria meu lugar. Era um banquinho redondo, de metal, frio, e todo cromado. Não tinha encosto para o caso de cair a pressão e, se desmaiasse, eu cairia em meio aos fios dos aparelhos. Não seria a melhor maneira de colaborar para o parto do meu filho. O banquinho ficava ao lado da maca onde a Célia estava, para que eu ficasse junto a sua cabeça e pudéssemos conversar. Ela ainda estava maquiada, tendo bebê de batom e tudo. Só a Célia mesmo. Vaidosa e linda até no Centro Cirúrgico. Tirei a primeira foto do parto nesse momento – precisava registrar a “cesárea maquiada”.

Percebi o médico usando um bisturi elétrico. Pelo cheiro, cortava e cauterizava a pele ao mesmo tempo. Quase disse que estava sentindo um cheirinho de churrasco, mas segurei a frase. Não era o melhor momento para fazer piada. Perguntei à Célia se estava tudo bem e ela me respondeu imediatamente que sim. Estávamos muito felizes naquele momento. Apreensivos, mas felizes. Era o nosso momento. O mais importante desses onze anos e nove meses juntos, entre namoro e casamento. “Nove meses” foi uma ironia do destino para fazer referência à gravidez. Onze anos e nove meses, desde 15 de julho de 1995.


SEGUNDA CHANCE

Naquele momento passou um filme em minha mente. Um filme de minha vida, de nosso namoro, casamento, do filho que perdemos pelo aborto natural em 6 de janeiro do ano anterior, no mesmo dia e horário em que um amigo nosso sofria um grave acidente. Mas todos nós tivemos uma segunda chance. Meu amigo Rubinho se recuperou e dava a volta por cima após vários dias em coma numa UTI. E nós, engravidamos novamente estávamos ali, prestes a concretizar nossa segunda chance de, finalmente, formarmos uma família completa: pai, mãe e filho. A célula da sociedade. Para o Rubinho, eu ligaria no dia seguinte, de manhã, para comemorar nossas segundas chances.

Lembrei-me do que o doutor Anastásio havia me dito sobre passar mal na sala de parto e aí não pude conter a piada: “Doutor, aquele negão de dois metros de altura está aí para socorrer os pais que passam mal na sala de parto?”. Rindo, ele respondeu que nem o negão estava lá e que seria melhor eu nem passar mal hoje. Percebi que ele trabalhava sozinho e não havia outro médico para auxiliá-lo, contrariando o que havia lido em vários livros. Percebi também que ele estava muito concentrado no que fazia, mas tentava transmitir segurança e fazia comentários como se fosse um operário de uma produção qualquer, fazendo um trabalho rotineiro. Para ele talvez fosse um trabalho rotineiro, mas, para mim era muito estranho ver aquela situação tão inusitada com ares de algo de rotina, comum. Ele conversava com o anestesista sobre os planos para o final de semana e coisas assim, enquanto cortava as oito (ou sete, ou nove, sei lá quantas) camadas para fazer a cesárea. Enquanto isso eu ajustava a câmera para fotografia em movimento (a maior velocidade de obturador possível) e para foto em seqüência, para disparar várias fotos por segundo. Queria captar o máximo possível do nascimento.

“Célia, você comeu alguma coisa”, perguntou o médico à Célia. Que respondeu de imediato contando sobre a pizza, comida às 21h00. E eu completei: “Pizza de banana com mussarela, doutor”. Ele brincou: “Puxa vida, Célia, foi comer justo pizza de banana!”, e sorriu. Num certo momento, todos ficaram calados e o anestesista cutucou o ombro da Célia e avisou: “Agora vai nascer”, alertando-a. Preparei a máquina para as fotos e a emoção chegou ao seu máximo.


CORDÃO ENROLADO

Notei tensão no semblante do doutor Anastásio, além de muita, muita concentração. Ele visivelmente estava num momento crucial do parto. E sem outro médico o ajudando. Sozinho. Levantei-me para ver melhor. Ele colocou a mão direita dentro da barriga e ficou mexendo lá dentro, como que ajeitando o bebê para retirá-lo. Fez vários movimentos sem tirar a mão de lá de dentro. Percebi até certo esforço em alguns momentos. Cerca de trinta segundos depois ele tirou a mão… Vazia. Sim, não tirou nada de lá de dentro. Fui do céu ao inferno naquele minuto. Num momento pensava que ia presenciar o ápice do momento mais importante da minha vida, o nascimento de meu filho. Segundos depois, vi aquela mão sair vazia de lá de dentro e fiquei preocupado. Ninguém falava nada. Aquele silêncio estava me ensurdecendo. Incomodando. Que terrível aquele momento.

O médico mudou de posição e ficou mais próximo do corte. Talvez mais bem apoiado no chão. E colocou a mão lá dentro de novo. Fazia novamente vários movimentos lá dentro. Mas, desta vez com mais força. O semblante, mais tenso. O dele. Porque o meu semblante devia ser de terror. Estava em pé e a Célia não podia ver meu rosto. Tinha a liberdade de me expressar sem problema naquele momento. Não precisava transmitir segurança, nem calma, nem tranqüilidade a ninguém. E o médico também não tinha mais esse compromisso. Estávamos todos com os sentimentos aflorados e sem máscaras. Nus de coração. Transparentes de expressão. Tentei me tranqüilizar novamente e pensei: “Isso deve ser normal. Deve ser assim mesmo. Acho que ele prepara a melhor posição para o bebê ser retirado na primeira vez e agora irá puxá-lo de lá de dentro de uma vez”. Voltei a ter o controle sobre minhas emoções. Acalmei-me. Convenci-me. Mas com sessenta segundos de mexidas e expressões de dificuldade e força nos poucos centímetros quadrados que ficavam visíveis no rosto do médico, escondido por trás de toda aquela máscara, toca, óculos, foi o que bastou para perder o controle novamente. E como um bisturi que corta o útero, uma frase do anestesista rompeu todo aquele silêncio ensurdecedor que havia tomado conta da sala de cirurgia: “Está difícil de tirar?”, perguntou ele ao médico. Naqueles dois segundos restantes, fiquei torcendo em minha mente: “Diga que não, diga que não, diga que não”. “Sim, está grudado lá em baixo”, respondeu ele jogando um balde de água fria em minha torcida e tirando a mão vazia novamente da barrica dela. E respondeu sério. E, pior, não disse mais nada. Silêncio novamente.

Se eu havia pensado que, alguns minutos atrás, tinha ido do céu ao inferno, naquele momento estava em frente ao próprio demônio. Nunca havia estado tão tenso, tão amedrontado. Nessas horas passa tanta besteira na mente da gente… Pensei que poderia estar algo errado e perderia nosso Giovani. Ou podia estar algo tão errado que perderia minha esposa. Ou, pior, perderia os dois. Senti-me tão impotente, incapaz de fazer qualquer coisa para ajudar. Era só um espectador ali. Não podia agir. Assistindo a própria tragédia. Mas, ainda bem que essas besteiras duram poucos segundos. Pelo menos comigo é assim. O pavor, o pânico, o medo me invade, toma conta de mim. E quando percebi isso, tiro forças para virar o jogo. Penso em Deus, tenho fé, lembro-me das tantas vezes que Ele me atendeu. Algumas por meu pedido, outras por iniciativa Dele mesmo. Penso que toda aquela impotência, tão humana, toda aquela fragilidade, que estava sentindo, aquela sensação de não poder fazer nada, poderia ser revertida pois Aquele que mais pode, Aquele que mais tem poder, o Onipotente, o Grande Criador do Universo estava ao meu lado. E foi a Ele que recorri: “Meu Deus, me ajude agora. Nunca precisei tanto de Ti”, pedi. Era minha esposa e meu filho que estavam em risco. Tudo isso deve ter acontecido em menos de dez segundos. Enquanto isso, o doutor Anastásio se posicionava para tentar novamente. Ficou com uma das pernas apoiada sei lá onde. Ou na maca, ou num banquinho, algo que o deixou quase em cima da barriga da Célia. Percebi que era uma posição para o “agora ou nunca”.


TERCEIRA TENTATIVA

Sua mão estava lá dentro da barriga novamente. Se achei que ele havia feito esforço nas duas primeiras tentativas, não tinha visto nada. Agora sim ele fazia esforço, caretas, força, mexia muito e aqueles segundos foram eternos para mim. Que angústia, que agonia, que tensão…

Silêncio. Torcida. Pensamento positivo. Expectativa. Tensão. Tensão. Muita tensão. Atenção. Concentração. Fé. Respiração. Insegurança. Confiança em Deus. Incerteza. Medo. Impotência. Vontade de ajudar. Perguntar. Falar. Gritar… O tempo parece que tinha esquecido de ir pra frente.

Foram mais uns quarenta e cinco segundos de mexidas, e força. Achei que o médico ia entrar na barriga dela. Ele suava, imaginando o que fazer naquele momento. Ela, quieta, não imaginava o que estava acontecendo. Eu, preocupadíssimo, imaginava até demais. Quando um som rompeu novamente o silêncio. Um som de algo que descolava. Como se algo estivesse embaixo d’água, preso sob alguma pressão, e fosse “descolado”. Quase como uma pia, cheia d’água, sendo tampada apenas por uma tampa qualquer, de plástico, e que estivesse mantendo-se vendando o ralo da pia graças à pressão exercida pelo encanamento. O som era semelhante a quando se tira essa tampa do ralo e logo uma grande porção de água é sugada.

Imediatamente após o som, o médico comemorou: “Descolou” – e sua expressão mudou radicalmente para um semblante imensamente melhor e tranqüilo. E, sem que houvesse tempo para eu expressar qualquer reação e ter certeza de que o pior momento já teria passado, ele tirou a mão de dentro da barriga, mas, desta vez, com um bebê sendo tirado pela cabeça. Ele ficou metade dentro, metade fora da barriga, quando o médico começou a desenrolar o cordão umbilical de seu pescocinho e contou: “Uma volta. Duas voltas!” – sim, o Giovani estava com duas voltas de cordão enrolado em seu pescoço. Seu rostinho estava roxo. E imagino o alívio dele – e você pode imaginar o meu alívio – quando o médico o desenrolou. Entre a primeira e a segunda volta de desenrolar do cordão, lembrei-me que estava lá não só para assistir, mas também para fotografar o parto. Afinal, a Célia também precisava ver essa cena. E acionei a câmera, disparando quatro cliques seqüenciais, captando toda a cena do desenrolar, que não durou mais que um segundo. Cliquei o médico tirando o bebê por completo da barriga e, por último, cortando o cordão umbilical. Mãe e filho estavam separados fisicamente. Eu era pai. Éramos, agora, uma família completa. Ou pelo menos começávamos a ser.

Eu estava no céu, no paraíso, e se tinha ido, alguns minutos atrás até o inferno, neste momento eu via a face de Deus. O milagre da vida completava-se na minha frente. Meu filho nascia. O Giovani vinha ao mundo. Aquele ser tão pequenino, tão frágil, era meu filho. A angústia havia ido para o espaço. Não passei mal, não desmaiei. Nem deu tempo. Sofri, sofri muito, intensamente, mas rapidamente, pouquíssimo tempo. Minha fé estava certa. Deus havia olhado por mim de novo. Me atendeu, nos protegeu e fortaleceu. O Giovani era lindo. Mesmo sem ver seu rosto com detalhes, ainda sujo, era lindo. Era lindo por tudo que significava, por tê-lo amado mesmo antes de ser concebido. Pelo útero da Célia ter se enchido de amor antes de recebê-lo. Por ter sido tão desejado, planejado e abençoado. “Obrigado, Senhor”, pensei ao vê-lo ali, peladinho, sujinho e dando sua primeira resmungada. É, ele não chorou ao nascer. Resmungou. Um resmungão como se dissesse: “Quem me achou aqui dentro escondidinho nesse lugar quentinho e protegido?” ou “Quem me incomoda aí do lado e fora?”, ou ainda “Quem teve a idéia de me tirar daqui de dentro, onde estava tão bom?”.


NA MÃO DA PEDIATRA

Imediatamente a pediatra, que estava ali, a dois metros do parto, o tempo todo com um pano azul-escuro, desses de hospital, e com as mãos em posição para pegar o bebê, aproximou-se do médico e levou o garoto. Levou rápido, como se algo estivesse errado com ele. Tinha pressa. Fiquei apreensivo ainda, mas voltei minha atenção para a Célia. E lhe disse que nosso filho era lindo. Ela, antes que eu terminasse a frase, me perguntou: “Ele é perfeito, Júnior?”. “Sim, gata, é perfeito”, respondi ainda meio abobado. “Tem cabelo?”, emendou outra pergunta preocupada com a possibilidade de o Giovani nascer careca. “Tem sim, tem cabelo, gatinha”, respondi rindo, achando graça dessa preocupação num momento com tanta coisa mais importante. Mas a emoção deixa a gente assim mesmo, “fora do ar”. Não me assustaria nem um pouco se ela me perguntasse se o nenê tem o cabelo liso ou enrolado…

Entre essas duas perguntas da Célia, ouvimos o choro do Giovani na sala ao lado. Um berreiro danado. Parecia uma caixa de som – pequenininho, mas fazendo um barulho imenso. Achamos graça daquele choro. Até o choro era lindo. Coisa de pais bobos.

Antes que eu pudesse achar que estava demorando, a enfermeira mandou me chamar. Fui num salto para fora da sala, seguindo-a. Cheguei ao local onde a pediatra estava com o Giovani e a vi tirando uma espécie de sonda da garganta dele. Devia estar sugando o líquido amniótico de seu minúsculo estômago. Antes daquele “caninho” sair totalmente de sua garganta, veio um choro altíssimo daquela boquinha. A primeira coisa que a pediatra me disse foi que ele era perfeito, e não tinha nenhum problema físico. E me passou a explicar alguns procedimentos. Examinou o abdome do garoto, o movimento dos braços e pernas, parecia que ia quebrar meu filho ao meio. Pesou: “Nossa, acho que vai dar três quilos exatos… Hummm… Um pouquinho menos, dois quilos e novecentos e oitenta gramas”, me informou ela, tirando-o da balança. E confirmou novamente: “Está tudo ótimo com seu filho”, tranqüilizando-me. E me convidou: “Vamos levá-lo para a mãe?”. “Vamos lá”, respondi com sorriso de orelha a orelha.


PRIMEIRO ENCONTRO

Chegando à sala de parto, a médica colocou o Giovani na maca, ao lado da cabeça da Célia. Ficaram os dois cabeça com cabeça. Quando a Célia disse “Seja bem-vindo, Giovani”, recebendo-o com todo amor do mundo – amor que podia ser visto em sua face. Se havia uma forma concreta de se mostrar o amor, era aquela cena, o primeiro encontro entre mãe e filho após o nascimento, fisicamente separados pelo cordão cortado, mas eternamente unidos pelo laço de amor que se formara havia nove meses ou mesmo antes. No momento em que a Célia carinhosamente encostou sua cabeça na do Giovani, por puro reflexo, ele levou sua pequenina mãozinha na cabeça, sentindo aquele contato quente, uma erupção de amor, cem por cento carinho. A médica ainda expressou: “Veja o reflexo da mãozinha dele!”, apontando a reação do recém-nascido. Fiz quatro ou cinco fotos desse momento. Inesquecível. Lindo. As duas pessoas mais importantes da minha vida estavam ali, juntas, seguras, sãs e salvas, saudáveis, perto de mim. Que sensação ótima. Que alegria. Felicidade sem fim. Enquanto fotografava, perguntei ao doutor Anastásio: “Está tudo bem com a Célia não é, doutor?”. Ele me respondeu que sim, e que o parto havia sido um sucesso. Respondeu enquanto costurava sua barriga – nesse momento estava com outra médica, doutora Patrícia, que havia acabado de chegar para ajuda-lo (antes tarde…). “Ah, doutor, qual foi o horário do nascimento?”, perguntei, curioso. “Meia-noite e quarenta e oito”, respondeu ele me informando que meu filho havia nascido já na sexta-feira, 20 de abril de 2007, pesando 2,980 kg, medindo 49 cm, às 00h48.

A doutora Paula, então, pegou o Giovani de volta e me perguntou: “Você quer carregá-lo?”. Respondi de “bate-pronto”, sem nem pensar (nem precisava), aceitando imediatamente e já fazendo gesto para pegar o meu filho no colo. Peguei-o. Senti-o junto ao meu corpo. E nesse momento um filme maior ainda passa na cabeça da gente. Foi impossível não pensar no que os meus pais já fizeram por mim na vida – e no que fazem até hoje. Pensei na minha responsabilidade dali para frente, pois uma vida dependia de mim a partir daquele dia. E, por mais que tivesse sido pensado, desejado, planejado, por mais que a gravidez servisse também para nos preparar para sermos pais, a ficha só cai quando o bebê está ali, junto com você. Acho que bati o recorde mundial de quantidade de pensamentos e sentimentos em menos de um segundo. A médica se ofereceu para tirar uma foto, a primeira do pai carregando o filhão. Que orgulho. “Claro que sim!”, respondi dando-lhe a câmera e instruindo-a sobre como usá-la. Ela clicou uma vez e disse que tiraria outra. A máquina, digital, estava gravando a imagem ainda e travou. Ela não conseguiu bater a outra foto. Ficou uns cinco segundos tentando. Comemorei: “Pode ficar o tempo que você quiser para tirar a foto, enquanto isso curto meu filhão aqui no colo. Que delícia!”. Enfim a máquina destravou, mas destravou enquanto ela não estava apontada para nós e fotografou um aparelho ao lado da maca. Aí ela voltou a focar o bebê no meu colo e nos fotografou pela segunda vez. O pai somente com parte da testa e os olhos de fora – todo o resto tapado pela “coleção inverno superfashion” do Centro Cirúrgico, em azul-claro e branco – e o bebê, pelado, enrolado apenas pelo pano azul-escuro de hospital, da “coleção moda verão” do Berçário. Foi um momento muito prazeroso, Muito bom. Inesquecível também.

Logo após a foto, a médica pegou o Giovani do meu colo e voltei a segui-la em direção ao local dos primeiro cuidados. Ela fez outros procedimentos e logo me disse para me trocar, descer até a recepção e aguardar para que a Célia e o bebê descessem. E avisou que eu poderia vê-los em seguida, no berçário e no quarto da maternidade.


FESTA

Meio a contragosto, fiz o que ela me pediu. Peguei minha roupa. Troquei-me. Agradeci a Deus novamente, agora mais consciente do que havia acabado de acontecer em minha vida. Peguei a filmadora e saí da ante-sala do Centro Cirúrgico. Fui para o térreo de elevador. Nesse caminho, antes de chegar à recepção, liguei de volta ao Epifânio: ”Pi, obrigado por rezar, está tudo bem. Meu filho nasceu ótimo e a Célia também está bem. Tudo correu maravilhosamente bem. Obrigado mesmo e desculpe novamente por ligar de madrugada”. ”Que bom, filho, que bom! Fico muito feliz por vocês. Agora já posso sair da capela e ir descansar então. Que bom”, respondeu-me ele com voz de alívio e ares de missão cumprida. Continuei meu caminho até a recepção. Ao chegar, deparei-me com uma platéia de sete pessoas, sendo três avós (somente meu sogro não estava lá, pois havia ficado em casa com minha cunhada Nilza) e quatro tios, minha irmã, meu “irmão”, e um casal de irmãos da Célia. O olhar de todos eles sobre mim era como o de jornalistas sedentos por uma revelação bombástica no início de uma coletiva de imprensa. Antes de me aproximar já fui dizendo: “Está tudo ótimo com os dois e o Giovani é lindo!”, disse isso mostrando a máquina fotográfica digital com as fotos para serem vistas naquele visorzinho pequeno, de menos de duas polegadas, mas que foi disputado quase a tapas. A máquina passava de mão em mão, freneticamente, e me enchiam de perguntas, as quais eu tentava responder objetiva e rapidamente para saciá-los. A felicidade estampada em meu rosto também lhes trazia muita informação, segurança e tranqüilidade. Minha sogra finalmente “destravou” e florescia um sorriso enorme em seu rosto. A percebi muitíssimo tensa o tempo todo. Desde o início ela era a mais preocupada e calada de todos. Seus olhos estavam constantemente cheios de lágrimas, como num choro contido de apreensão nos últimos noventa minutos. Agora era só alegria. As lágrimas eram de felicidade. O choro era de emoção de estar prestes a conhecer seu primeiro (e tão desejado) netinho. Meus pais também estavam emocionados, mas contidos, também mais experientes – era o primeiro neto homem, mas a neta Lívia já havia lhes ensinado a ficarem mais confiantes quase cinco anos atrás. Parecia reveillon de tantos abraços, e cumprimentos, e felicidade. Todos se parabenizavam entre si. Alguns chegaram a dar parabéns duas vezes para mim: “Parabéns, papai!”. A alegria transbordava em todos nós. Uma pena a Célia não estar vivendo esse momento conosco. Uma pena.

A espera para ver (ou rever) o Giovani foi outra agonia. Nem sei quanto tempo demorou. Perdi completamente a noção do tempo. Somente o pai poderia subir para ver o bebê no berçário e a mãe na maternidade. Conversamos com a Nayara, da Internação, enquanto eu assinava a papelada que faltava, e ela conseguiu que a enfermeira-chefe autorizasse a subida de mais duas pessoas, além de mim. Meu pai abriu mão na hora e as duas avós se elegeram por auto-aclamação. Ficamos na expectativa. Sei lá quantos minutos depois subimos. Elevador. Primeiro andar. Direita. Direita novamente. E estávamos lá. Em frente àquele vidro enorme, característico dos berçários. Vários berços vazios. Somente um com bebê. O Giovani. Peladinho, lindo, esperneando e chupando a mãozinha. Quietinho. As avós não paravam de babar – eu também não. Se parabenizavam novamente. Abençoavam o bebê, pediam a Deus proteção e faziam sua prece particular naquele momento, desejando o melhor para aquele garoto tão importante para nós.

Fui ver a Célia no quarto mais próximo do berçário, o 111-A. Ela estava bem. Meio dopada, sem estar cem por cento consciente por tudo o que aconteceu e, principalmente, pelas medicações e anestesia. Mas estava bem. Sem batom e um pouco descorada, mas aparentemente saudável. Perguntou novamente pelo bebê e logo em seguida chegaram a avó e a sogra para vê-la. A mãe dela, naturalmente, perguntou umas três vezes se ela estava bem. E as duas parabenizaram a Célia pelo Giovani. E disseram que ele era lindo. Eu não podia estar errado. Ele era lindo mesmo, pois tanta gente dizia isso e confirmava minha avaliação. Logo veio uma enfermeira para nos tirar de lá, pois nosso tempo havia acabado. Não sei dizer quanto tempo foi. Só sei que foi pouco. Vinte e quatro horas seria pouco naquele momento.

Saímos do quarto, demos uma última contemplada no Giovani, saímos do berçário. Esquerda. Esquerda de novo. Elevador. Térreo. Voltamos para a recepção do hospital e nos juntamos aos outros cinco bobões lá embaixo. Atualizamos as informações, que não tinha quase nada de mais atual nem de novo. Mas voltamos a confirmar. A Célia está bem. O Giovani está bem. E ele é lindo mesmo. Concluímos rapidamente que precisaríamos ir embora naquele momento, pois nada mais teríamos a fazer no hospital. Era esperar o dia seguinte para os horários de visitas. Nos despedimos, todos perguntaram se eu precisava de algo. Neguei e agradeci. Vamos todos dormir, pois amanhã será um longo dia. Minha mãe ofereceu para que eu dormisse na casa dela. Valdirei ofereceu-se para dormir em casa. Mas neguei todas as ofertas. Eu precisava ir pra casa sozinho e preparar tudo e “todos” (inclusive os cães) para receber um novo integrante da família (ou, para os cães, da “matilha”) dentro de dois ou três dias.


SUPERDOSE DE EMOÇÃO

Saímos todos do hospital, felizes. Fui até meu carro, dirigi até em casa agradecendo a Deus durante todo o caminho. Podendo dizer em voz alta o quanto eu estava feliz e grato por Deus ter me dado uma família tão linda, por ter me ouvido novamente, enfim, por tudo ter acontecido daquela maneira, da melhor forma possível. Não me lembro do caminho entre o hospital e minha casa. Meu cérebro não registrou aquele trajeto. Lembro-me de estar no carro, agradecendo, emocionado, falando em voz alta com Deus, como se ele não pudesse ouvir meus pensamentos. Logo em seguida, no meio do caminho, liguei para o “Cabeça” (Nélcio, um grande amigo, que considero demais), que trabalha de madrugada e não o incomodaria ligando nesse horário, que já passava das três da manhã, e contei-lhe a notícia do nascimento do Giovani. Ele se emocionou muito e quase me levou às lágrimas. Suas esposa, que perdeu um filho nas mesmas condições que a Célia e apenas uma semana antes, também está grávida e estamos torcendo muito por ele. Foi muita emoção também para nós.

Lembro-me apenas de chegar em casa. A emoção tomou conta de mim de uma forma inexplicável. Acho que somente naquele momento a ficha realmente estava caindo. Eu tinha um filho. Meu filho nasceu bem, perfeito. Deu tudo certo. A segunda chance nossa vingou. Minha esposa estava bem. E voltaria para casa com o Giovani nos braços. Que momento esperado e desejado. Fui entrando em casa e a emoção era tanta, tanta, que não podia conter. Que alegria! Que felicidade! Como é bom ter um filho. Como estava realizado. Que sensação boa.

Continuava agradecendo a Deus sem cessar e cedi…

Chorei.


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